A questão mais radical da filosofia: por que existe algo em vez de nada? O conceito de ser interroga o fundamento de toda realidade — não apenas o que as coisas são, mas o fato mesmo de que são.
A distinção entre ser e ente é o ponto de partida da ontologia de Heidegger. O ser (Sein) não é um ente entre outros — é aquilo em virtude do qual os entes podem ser e aparecer. Quando pergunto "o que é este livro?", pergunto sobre um ente. Quando pergunto "por que algo é em vez de nada?", pergunto sobre o ser.
Aristóteles identificou a metafísica como a ciência que estuda "o ser enquanto ser" — não os seres em seus aspectos particulares (que cabem à física, à matemática, à ética), mas o fato mesmo de ser, e os atributos que pertencem a qualquer coisa apenas pelo fato de ser.
A questão do ser parece abstrata, mas é concreta: ela interroga o fundamento do real e as condições de possibilidade de todo conhecimento, de toda linguagem e de toda experiência.
Parmênides formulou o problema com radicalidade inédita: o ser é e não pode não ser; o não-ser não é e não pode ser pensado. Isso leva à conclusão desconcertante de que o movimento e a multiplicidade — o que os sentidos nos mostram — são ilusão. O ser verdadeiro é uno, eterno, imóvel e idêntico a si mesmo.
Platão herda o problema e o complica: há dois modos de ser — o ser das Formas (eterno, inteligível, verdadeiro) e o ser dos particulares sensíveis (transitório, dependente das Formas para ser o que é). A ontologia se articula com a epistemologia: só conhecemos verdadeiramente o que é verdadeiramente.
Heidegger diagnóstica a história da filosofia ocidental como "esquecimento do ser": desde os gregos, perguntamos sobre os entes mas esquecemos a questão do ser. Sua obra é uma tentativa de recolocar essa questão fundamental.
A questão do ser surge de modo explícito com Parmênides de Eléia (século V a.C.), cujo poema "Sobre a Natureza" estabelece o caminho da verdade: o ser é; o não-ser não é. Antes dele, os filósofos pré-socráticos perguntavam sobre o princípio (arché) de todas as coisas sem formular diretamente a questão do ser.
Aristóteles sistematiza a ontologia ao identificar dez categorias — maneiras pelas quais o ser se predica: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, estado, ação e paixão. O ser não é um gênero único; é dito de muitas maneiras (pollachōs legetai).
A escolástica medieval distingue ser essencial (o que a coisa é por definição) de ser existencial (o fato de que a coisa existe). Em Deus, essência e existência coincidem: Deus é o ser por essência. Nas criaturas, essência e existência são realmente distintas: a essência de um cavalo não inclui necessariamente a existência.
Tomás de Aquino transforma essa distinção em prova da existência de Deus: como nas criaturas a existência não vem da essência, ela deve vir de uma causa externa, até chegar ao ser que é por si mesmo — o Ipsum Esse Subsistens.
Heidegger em Ser e Tempo (1927) retoma a questão com método fenomenológico: para investigar o ser, parte do único ente que levanta a questão — o Dasein (ser-aí), o ser humano. A analítica existencial revela a estrutura do ser humano como ser-no-mundo, ser-com-outros e ser-para-a-morte.
Fundador da ontologia. Afirma que o ser é uno, eterno e imóvel. O não-ser é impensável. A multiplicidade e o movimento dos sentidos são ilusão.
Distingue dois modos de ser: o das Formas imutáveis (ser pleno) e o dos particulares sensíveis (ser deficiente, dependente das Formas).
Rejeita o monismo parmenídeo. O ser é dito de muitas maneiras; a metafísica estuda o ser enquanto ser e seus atributos necessários.
Distingue essência e existência nas criaturas; em Deus coincidem. O ser divino é o fundamento do ser de todas as coisas.
A questão do ser é a questão mais fundamental, esquecida pela metafísica ocidental. Ser e Tempo a recoloca via analítica do Dasein.
A questão do ser pode parecer a mais abstrata de todas, mas reaparece de modo concreto em vários campos. Na biologia, o debate sobre o que distingue organismos vivos de sistemas físicos complexos toca na questão do ser. Na inteligência artificial, a pergunta sobre se um sistema computacional poderia "realmente" entender ou apenas simular a compreensão é uma variante da questão do ser.
Na experiência cotidiana, a questão do ser emerge nos momentos-limite: a morte de alguém querido nos confronta com a diferença entre ser e não-ser. A gratidão por existir — o espanto de que haja algo em vez de nada — é o ponto de partida existencial da ontologia.
| Ser × Ente | O ser é aquilo em virtude do qual os entes são. Os entes são as coisas que existem; o ser é o fundamento que as torna possíveis. Confundir ser e ente é o "esquecimento do ser" que Heidegger diagnostica. |
| Ser × Existência | Na tradição escolástica, existência é o ato de ser — o que atualiza a essência possível. "Ser" em sentido pleno pode incluir a essência; "existência" é especificamente o fato de estar presente na realidade. |
| Ser × Aparência | Para Parmênides e Platão, as aparências sensíveis têm um ser deficiente em relação ao ser verdadeiro das Formas ou do ser puro. A distinção ser/aparência funda toda a tradição platônica. |
| Ser × Existir (no sentido existencialista) | Sartre inverte a tradição: a existência precede a essência. O ser humano primeiro existe (está jogado no mundo) e depois se faz — não há essência prévia que determine o que somos. |