Metafísica

Ontologia

O ramo da metafísica que investiga o que existe e como se organizam as categorias fundamentais do ser. Não pergunta apenas "o que existe?", mas "o que significa existir?".

Filósofos centrais: Parmênides · Aristóteles · Duns Scotus · Heidegger · Quine

O que é a ontologia?

Ontologia vem do grego on (ser, aquilo que é) e logos (estudo, discurso): o estudo do ser enquanto ser. Diferente das ciências particulares, que investigam regiões específicas da realidade — a física estuda a matéria, a biologia estuda a vida —, a ontologia pergunta o que é comum a tudo o que existe, apenas por existir.

Aristóteles chamou essa investigação de "filosofia primeira": antes de perguntar o que é uma árvore ou um número, a ontologia pergunta o que significa, em qualquer caso, "ser alguma coisa". É a pergunta mais geral e, por isso mesmo, a mais difícil de responder.

O que realmente existe?

O problema central da ontologia é decidir o que conta como existente e em que sentido. Números existem do mesmo modo que pedras? Uma nação existe da mesma forma que uma pessoa? Quando dizemos que "a justiça existe", queremos dizer o mesmo que quando dizemos que "esta mesa existe"?

Quine propôs um critério célebre: "ser é ser o valor de uma variável" — existe aquilo que uma teoria precisa admitir para ser verdadeira. Essa formulação desloca a pergunta da metafísica pura para a lógica: comprometemo-nos ontologicamente com aquilo que nossas melhores descrições do mundo exigem que exista.

Outro problema recorrente é a distinção entre categorias de ser: substâncias, propriedades, relações, eventos, processos. Cada tradição ontológica propõe uma lista diferente das categorias fundamentais — e discorda sobre quais delas são redutíveis a outras.

De onde vem o conceito?

Parmênides inaugura a ontologia ocidental ao declarar que "o ser é, o não ser não é" — e que pensar e ser são a mesma coisa. Para ele, a razão exige que o ser seja uno, eterno e imutável; a multiplicidade e a mudança que os sentidos mostram seriam ilusão.

Aristóteles reformula o problema em termos menos radicais: existem múltiplas substâncias, e o ser se diz de muitas maneiras (substância, quantidade, qualidade, relação). Sua investigação do "ser enquanto ser" na Metafísica torna-se o texto fundador da disciplina, mesmo antes de o termo "ontologia" existir — ele só seria cunhado no século XVII.

Como o conceito evolui?

Na Idade Média, Duns Scotus discute a "unidade do ser": o termo "ser" se aplica a Deus e às criaturas no mesmo sentido básico, ou apenas por analogia? A questão importa porque determina se é possível conhecer racionalmente algo sobre o ser divino a partir do ser das criaturas.

No século XX, Heidegger relança a pergunta de modo radical: a filosofia ocidental, segundo ele, esqueceu a diferença entre o ser (Sein) e os entes (Seiende) — tratou o ser como se fosse apenas mais uma propriedade das coisas, quando na verdade é a condição que torna possível que qualquer coisa seja. Seu projeto de uma "ontologia fundamental" busca recuperar essa pergunta esquecida partindo da existência humana (Dasein).

Já Quine, no século XX, desloca a ontologia para dentro da lógica formal: comprometimentos ontológicos são revelados pela estrutura das sentenças que aceitamos como verdadeiras, não por intuição metafísica direta.

Quem pensou a ontologia?

Parmênides (c. 515–450 a.C.)

O ser é uno, eterno e imutável. Pensar e ser coincidem; a mudança percebida pelos sentidos é ilusão.

Aristóteles (384–322 a.C.)

Investiga "o ser enquanto ser" na Metafísica. Distingue substância e acidente, e as múltiplas formas de dizer o ser.

Duns Scotus (1266–1308)

Defende a univocidade do ser: o termo "ser" tem sentido básico comum entre Deus e as criaturas.

Heidegger (1889–1976)

Recupera a "diferença ontológica" entre ser e ente. Propõe uma ontologia fundamental a partir da existência humana.

Willard van Orman Quine (1908–2000)

"Ser é ser o valor de uma variável." Desloca o compromisso ontológico para a estrutura lógica da linguagem.

A ontologia na vida contemporânea

Fora da filosofia acadêmica, "ontologia" ganhou um segundo uso técnico em ciência da computação: uma ontologia é uma estrutura formal que define categorias, propriedades e relações entre conceitos dentro de um domínio — a base de sistemas de inteligência artificial, web semântica e bancos de dados que precisam "saber" que um cão é um mamífero e um mamífero é um animal.

O debate filosófico também aparece em bioética e direito: perguntar se um embrião, uma corporação ou uma espécie em extinção "existem" como sujeitos morais é, no fundo, uma pergunta ontológica sobre que tipo de entidade merece reconhecimento e proteção.

Ontologia e conceitos próximos

Ontologia × MetafísicaA metafísica é o campo mais amplo, que inclui perguntas sobre causa, tempo e liberdade. A ontologia é a parte da metafísica dedicada especificamente ao ser e suas categorias.
Ontologia × EpistemologiaA ontologia pergunta o que existe; a epistemologia pergunta como podemos conhecer o que existe. São perguntas distintas, mas frequentemente dependentes uma da outra.
Ser × EntePara Heidegger, "ser" é a condição pela qual algo pode ser considerado existente; "ente" é qualquer coisa particular que existe. Confundir os dois é, para ele, o erro fundamental da metafísica tradicional.
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Cinco pontos essenciais

  1. Ontologia é o estudo do ser enquanto ser: não uma região da realidade, mas aquilo que é comum a tudo o que existe.
  2. Parmênides funda o problema ao declarar que o ser é uno e imutável; Aristóteles o reformula distinguindo substância e acidente.
  3. Quine desloca o compromisso ontológico para a lógica: existe aquilo que nossas melhores teorias exigem que exista.
  4. Heidegger recupera a "diferença ontológica" entre ser e ente, acusando a tradição de ter esquecido essa distinção.
  5. Fora da filosofia, "ontologia" também nomeia estruturas formais usadas em inteligência artificial e ciência da computação para organizar categorias e relações.
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