Política

Como a propaganda moldou o século XX

24 de Julho de 2026

O século XX não foi moldado apenas por tanques, fábricas e parlamentos. Foi moldado também por imagens, slogans, rádios, jornais, cartazes, filmes, pesquisas de opinião e técnicas de persuasão em escala industrial.

A propaganda moderna nasceu quando comunicação de massa, Estado burocrático, psicologia social e mercado encontraram uma mesma pergunta: como orientar a percepção de milhões de pessoas que jamais se encontrarão pessoalmente? A resposta não foi única. Em democracias, apareceu como relações públicas, publicidade e fabricação de consenso. Em regimes totalitários, tornou-se instrumento de mobilização, medo e mentira organizada.

O problema filosófico não é simples. Toda vida pública depende de persuasão. Informar, convencer e defender uma causa fazem parte da política. A propaganda torna-se perigosa quando substitui julgamento por reflexo, linguagem por comando e realidade por ambiente emocional administrado.

Da informação à fabricação da opinião

Walter Lippmann percebeu cedo que sociedades complexas não são experimentadas diretamente pela maioria dos cidadãos. Vivemos por mapas mentais, imagens simplificadas e relatos intermediados. A opinião pública nasce, em grande parte, daquilo que uma população acredita saber sobre um mundo que não vê por completo.

Essa constatação abre uma tensão democrática. Se o cidadão depende de mediações, quem organiza essas mediações? A imprensa pode esclarecer, mas também selecionar, enquadrar e dramatizar. O rádio pode aproximar, mas também uniformizar. O cinema pode formar imaginação histórica, mas também transformar política em espetáculo afetivo.

Edward Bernays levou essa percepção para o campo das relações públicas. A persuasão deixou de ser apenas discurso explícito e passou a operar por associação simbólica: desejo, status, medo, pertencimento e aspiração. O consumidor e o eleitor começaram a ser pensados como públicos administráveis.

Guerras, massas e regimes totalitários

As guerras mundiais mostraram que propaganda não é ornamento da política. Ela prepara sacrifícios, identifica inimigos, simplifica conflitos e organiza emoções coletivas. Um povo em guerra precisa acreditar que sua dor possui sentido; a propaganda oferece esse sentido, muitas vezes apagando ambiguidades morais.

Nos regimes totalitários, a propaganda assumiu função ainda mais radical. Hannah Arendt analisou como mentira sistemática, isolamento social e ideologia podem produzir um mundo paralelo, no qual fatos importam menos que coerência interna do mito político. A propaganda não precisa convencer todos racionalmente; precisa tornar difícil permanecer fora de sua atmosfera.

Jacques Ellul ampliou o diagnóstico ao mostrar que a propaganda moderna não se limita a cartazes oficiais. Ela penetra hábitos, educação, entretenimento e linguagem cotidiana. Seu poder está em parecer ambiente, não mensagem isolada.

Publicidade e desejo

O século XX também transformou publicidade em filosofia prática do consumo. Produtos passaram a prometer identidade, juventude, liberdade, erotismo, status, segurança e pertencimento. O objeto vendido importava menos que a forma de vida sugerida por ele.

Essa continuidade entre propaganda política e publicidade comercial não significa que comprar um produto seja igual a obedecer a um regime. Significa que ambas aprenderam a operar sobre a imaginação social. A pergunta deixou de ser apenas “isto é verdadeiro?” e passou a ser “que tipo de pessoa eu pareço ser ao aderir a isto?”.

Informar, persuadir, manipular

Informação busca tornar uma situação mais compreensível. Persuasão tenta convencer alguém apresentando razões, imagens ou valores. Manipulação age quando explora vulnerabilidades, oculta interesses decisivos, falsifica contexto ou impede que a pessoa julgue com liberdade suficiente.

A fronteira nem sempre é limpa. Uma campanha de saúde pública usa técnicas persuasivas para proteger vidas. Uma campanha eleitoral pode usar dados verdadeiros para criar medo desproporcional. O critério filosófico está na relação com a autonomia: a comunicação amplia ou estreita a capacidade de julgar?

Das massas às plataformas

As plataformas digitais herdaram técnicas do século XX e acrescentaram algo novo: personalização algorítmica, velocidade, mensuração contínua e participação do próprio usuário na difusão da mensagem. A propaganda já não precisa falar igual para todos; pode testar versões, capturar atenção e aprender com cada reação.

Isso não significa que todos sejam passivos. Usuários reinterpretam, resistem, ironizam e desmontam narrativas. Mas a assimetria permanece: poucos sistemas medem muitos comportamentos e transformam atenção em valor econômico e político.

Conclusão aberta

A propaganda moldou o século XX porque descobriu que governar sociedades modernas exige governar imagens do mundo. Ela não aboliu a razão, mas aprendeu a contorná-la por emoção, repetição, prestígio e medo.

A tarefa filosófica hoje não é imaginar uma esfera pública sem persuasão. É defender condições para que a persuasão possa ser julgada: educação histórica, imprensa responsável, transparência institucional, memória crítica e cidadãos capazes de desconfiar inclusive das mensagens que confirmam seus desejos.

Fontes e leitura complementar

Política opinião pública e manipulação Século XX Ocidente contemporâneo
propagandaopinião públicamanipulaçãomeios de massatotalitarismo
Próximo estudo recomendado Hannah Arendt e a banalidade do mal