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FILOSOFIA CLÁSSICA

Empédocles: Amor e Ódio como Forças que Governam o Universo

03 de Maio de 2026

Empédocles de Agrigento (490–430 a.C.) foi talvez o filósofo pré-socrático mais extravagante. Médico reconhecido, orador poderoso, político influente e — segundo ele mesmo — algo próximo de um deus. Caminhou por cidades usando sandálias douradas e uma coroa de louros, cercado por seguidores que esperavam dele curas milagrosas e profecias.

Mas por baixo da pose mística havia um pensador de primeira linha, cuja teoria da natureza influenciou dois milênios de ciência e filosofia — de Aristóteles a Galeno, do Renascimento à alquimia moderna.


As Quatro Raízes — A Primeira Teoria dos Elementos

Empédocles recusou a ideia de um único princípio (a água de Tales, o fogo de Heráclito) e propôs quatro: fogo, ar, água e terra. Ele os chamava de "raízes" (rhizomata) — não porque fossem simples átomos, mas porque eram as substâncias fundamentais das quais tudo o mais era composto.

Nenhuma das quatro é criada ou destruída. Elas apenas se combinam em proporções diferentes, produzindo toda a diversidade do mundo visível. O sangue é uma mistura igual das quatro. Os ossos são dois de fogo, dois de terra, um de ar, um de água. A consciência é a proporção específica no sangue que corre pelo coração.

Aristóteles adotou os quatro elementos de Empédocles e os transmitiu para toda a ciência medieval e renascentista. Galeno os usou como base da medicina dos humores. O framework durou — com modificações — até o século XVII.


Amor e Discórdia — As Forças que Movem o Cosmos

Mas os quatro elementos sozinhos não explicam o movimento. Para isso, Empédocles introduziu duas forças opostas:

Philia (Amor, Amizade): a força que atrai, une, combina os elementos. Sob seu domínio total, surge o Sphairos — uma esfera perfeitamente homogênea onde tudo está fundido num único ser.

Neikos (Discórdia, Ódio): a força que repele, separa, dispersa os elementos. Sob seu domínio total, cada elemento existe isolado dos outros — terra separada de fogo, ar separado de água.

"O Amor une todas as coisas num todo harmonioso; a Discórdia as separa e as lança em guerra umas contra as outras."

O cosmos atual existe no intervalo entre esses dois extremos: nem união perfeita nem separação total. É o estado de mistura intermediária que torna a vida, a diversidade e a mudança possíveis.


O Ciclo Cósmico e a Reencarnação

Para Empédocles, o cosmos oscila eternamente entre ciclos. O Amor cresce, unifica, e no limite extremo produz o Sphairos imóvel. Então a Discórdia cresce de dentro, fragmenta, dispersa. Daí o Amor volta a atuar — e o ciclo recomeça.

Nesse quadro, as almas são seres divinos que pecaram e foram exilados no mundo da mistura, passando de forma em forma — animal, vegetal, humano — até se purificarem o suficiente para retornar à esfera divina. Empédocles afirmava ter sido, em vidas anteriores, um arbusto, um peixe e uma donzela.


A Lenda do Etna

Diz a lenda que Empédocles se lançou na cratera do Etna para provar que era imortal — ou para tornar-se deus sem deixar rastros de morte humana. O Etna devolveu apenas uma de suas sandálias de bronze.

Verdade ou mito, a história captura algo essencial no pensamento de Empédocles: a ideia de que as fronteiras entre humano e divino, entre vida e morte, entre amor e destruição são mais permeáveis do que parecem. As forças que movem o cosmos são as mesmas que movem a alma — e no limite, não há distinção entre físico e espiritual, entre cosmologia e ética.